Projeto prevê a expropriação de terras onde for localizado
trabalho escravo
No terceiro dia após o início da nova legislatura no Congresso Nacional, a
Frente Parlamentar Mista e a Frente Nacional pela Erradicação do Trabalho
Escravo iniciaram a mobilização para que a PEC (Proposta de Emenda à
Constituição) 438, que prevê a expropriação de terras onde for localizado
trabalho escravo, seja votada.
A proposta foi apresentada pela primeira vez em 1999 (há quatro
legislaturas), aprovada em 2001 pelo Senado e, desde 2004, aguarda votação em
segundo turno na Câmara dos Deputados.
De acordo com o senador Cristovam Buarque (PDT -DF), que é da Comissão de
Direitos Humanos, só com a mobilização política, como a que foi feita para
criação da Lei da Ficha Limpa no ano passado, é que a PEC será aprovada.
- Se não houver mobilização, não será aprovado nunca.
Cristovam, que está no Congresso desde 2003, afirma que o parlamento atual
não aprova a lei por causa de lobby contrário.
- Nós, parlamentares de hoje, somos piores que os parlamentares de 1888. A proposta da
princesa Isabel [da Lei Áurea] deu entrada no dia 3 de maio e dez dias depois
ela sancionou. Ou, então, nós somos mais lerdos ou mais subordinados aos
lobbies que estão contrários a essa decisão tão óbvia: alguém que mantém
trabalhadores em escravidão não merece ter terra.
Na avaliação de Leonardo Sakamoto, da ONG (organização não governamental)
Repórter Brasil, a PEC será aprovada se for colocada em votação na Câmara.
- A proposta é forte. A maior parte dos parlamentares apoia, há apoiadores
entre governo e oposição.
Segundo ele, a PEC não vai a votação porque “a pauta não passa no colégio de
líderes”, que define a agenda de votação no plenário da Câmara.
Sakamoto avalia que, além da mobilização no Congresso, é preciso empenho
governamental. No ano passado, o então presidente da Câmara Michel Temer
(PMDB-SP), atual vice-presidente da República, recebeu abaixo-assinado com 168
mil adesões pedindo a aprovação da PEC.
A ONG rastreou 600 fazendas onde se verificou a ocorrência de trabalho
escravo. O fenômeno ocorre em áreas rurais que desenvolvem atividades
diferentes, como pecuária, produção de álcool, soja, algodão, tomate, extração
de madeira para carvoaria e coleta de frutas. O ativista disse ainda que “há
muitos ruralistas que querem acabar com o trabalho escravo, pois consideram
concorrência desleal”.
Cristovam e Sakamoto participaram da reunião conjunta da Frente Parlamentar
Mista e da Frente Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo que ocorreu
nesta quinta-feira (3) pela manhã no Senado. A reunião encerrou a Semana
Nacional de Combate ao Trabalho Escravo que, em 2011, marcou sete anos das
mortes de três fiscais do trabalho e um motorista do MTE (Ministério do
Trabalho e Emprego) em Unaí quando participavam de fiscalização na zona rural
da cidade.
Segundo dados apresentados na reunião, o número de auditores fiscais do
trabalho está diminuindo: em 1996 havia 3.464; em 2010 o número era de 3.038.
Cerca de 220 pessoas aprovadas como auditor fiscal do trabalho em concurso
público em 2009 aguardam para ser nomeadas. Em agosto do ano passado, o MTE
protocolou no Ministério do Planejamento o pedido de autorização para nomear
117 aprovados.