Parlamentares aumentam seus proventos em 60%, mas se recusam a discutir
fim de 14º e 15º salários
Qual é a possibilidade de senadores e deputados aprovarem um projeto de lei que acabe com os próprios benefícios? O
R7
perguntou para os líderes dos principais partidos do Senado se eles são
favoráveis ao PDL (Projeto de Decreto Legislativo) 71/2011 que a colega
petista Gleisi Hoffmann (PR) propôs este ano para acabar com o 14º e
15º salários que o Congresso paga a senadores e deputados federais. Dos
seis líderes consultados, só dois responderam à reportagem, e a própria
Gleisi reconhece a dificuldade de aprovar o projeto.
Esses 14º e 15º salários são na verdade uma “ajuda de custo” para
compensar as despesas que os parlamentares têm com a mudança e
transporte de Brasília para seus Estados de origem no fim e no começo
de cada ano.
Ao
R7, Gleisi afirmou que essa ajuda fazia
sentido nos tempos em que o transporte era difícil, como quando a
capital federal ficava no Rio de Janeiro ou tinha acabado de ser
transferida para Brasília. Mas hoje as coisas mudaram.
- Qual é o deputado e senador que faz mudança todo ano? Quando o
Parlamento era no Rio, não havia transporte rápido e eles ficavam lá o
ano inteiro. Só voltavam no final do ano. Mas não agora. Agora tem
recurso. Temos de ser rigorosos com verbas indenizatórias, ou elas
viram uma possibilidade de salário.
Pelas contas da senadora, o fim desses benefícios geraria uma economia
de R$ 24 milhões por ano e ainda daria um lustre na imagem desgastada
do Congresso.
- É uma oportunidade de recuperar a credibilidade diante da opinião pública. O Congresso não pode ser sinônimo de coisa ruim.
Como o projeto será votado primeiro no Senado e depois na Câmara, o
R7
entrou em contato com o líder do governo no Senado, Romero Jucá
(PMDB-RR), e com os líderes dos principais partidos da Casa. A
reportagem conversou com a assessoria dos senadores Demóstenes Torres
(DEM-GO), Renan Calheiros (PMDB-AL), Humberto Costa (PT-PE), Alvaro
Dias (PSDB-PR) e Gim Argello (PTB-DF). Apenas o petista e o tucano
responderam à reportagem.
Embora goste do projeto, Humberto Costa admitiu a dificuldade em
aprová-lo, já que outras ideias semelhantes já foram discutidas pela
Casa, mas acabaram engavetadas.
-
A proposta permite essa ajuda de custo no início e no final do mandato,
quando haveria realmente uma justificativa. [...] Agora, no final de
cada ano, realmente é um salário travestido com outra terminologia. Mas
é importante dizer que este projeto é pioneiro nesta legislatura, mas
em outros momentos não conseguiu passar. Então, na minha avaliação, as
chances de aprovação são remotas, até porque quem legisla sobre isso
são os próprios beneficiários. [A proposta] Terá meu voto, terá minha
defesa, mas, realisticamente falando, eu acho difícil que isso passe.
Apesar de admitir a “pouca fé” em relação à aprovação da proposta, o
senador diz acreditar que o PT – segunda maior bancada do Senado, com
15 cadeiras – apoiará a causa.
- O PT sempre se contrapôs a vários tipos de privilégio no Legislativo.
Nós somos defensores de que o parlamentar tenha amplas condições de
trabalhar, mas não quando o benefício é, de certa forma, um privilégio.
Acho que a tendência do PT é ser favorável no projeto.
Já o líder do PSDB afirmou que vai votar favoravelmente à proposta. Dos
outros parlamentares, nenhuma resposta, apesar da insistência da
reportagem.
A própria autora da ideia reconhece a frieza com que o projeto foi
recebido pelos colegas no dia em que ela apresentou a proposta, dia 2
de fevereiro último, dia em que os novos parlamentares tomaram posse.
- Poucos senadores vieram falar comigo, e quem falou não disse se era contra ou a favor.
Salários
Os parlamentares não querem discutir o fim do benefício, mas não
abriram mão de se reunirem no dia 15 de dezembro do ano passado para
aumentar seus próprios salários em 60%, de R$ 16.512 para R$ 26.713.
Eles reclamavam que o último reajuste havia sido dado em 2007.